Na janela o céu
Não vou falar de sentimentos
À janela aberta, para o vento
Colecionar amores, sabores
Não vou esfriar os calores
Nem mudar num estalar o tempo
Enunciar contentamento
Esclarecer-me do que há
Ou do que vem atrás
Perder a hora e reclamar
Que a peça já está para começar
Não vou esfriar as retinas
E só esquentá-las nas matinas
Vou à noite procurar o final
Da história banal
De um homem que é menino
E hoje acordou insistindo
Que ainda não nasceu, que ainda
A dor não é extinta
E as florestas ainda vazias
As casas de marias
Não recebem estrangeiros como ele
E não tecem vestidos para nele.
Nem vou imaginar tudo diferente
Só o silêncio é comovente
Mas no palco a atriz chora
A tristeza que não vai embora
É como um louco como eu
Cicatriz que não morreu
No peito esquerdo mudo
A bater como se bate um surdo
Mas não insta para falar de sentimentos
À janela aberta, para o vento
Que fechado estou na mente
E não há nada que eu invente
Nessas horas de penúria ingrata
Nesse sonho que em verso acaba...

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