terça-feira, março 21, 2006

Último reino

Aos navegantes de primeira viagem
Ensina o mar
Em suas primeiras ondas à margem
Como se equilibrar no ar...
Girou o primeiro errante
Afogou-se logo na profundidade
De um céu escuro e berrante
Cego pela claridade

Pois, acredite, nem todos nasceram para sonhar
Eu conheci uma rainha,
Filha de Poseidón, filha do mar
Reclamando que o amor nunca vinha
Enclausurada em lembranças
Em seu castelo de areia solitário
Mandou o vento sondar as estâncias
Em busca do sentimento lendário

Falou-me o preposto sobre tais anseios
Então lhe pedi: amigo, vá ventar
A mais bela das mulheres quer esteio
Esperando o que não quer começar
A noite cala as ondas e faz chover estrelas
E a lua derrama sua luz sobre a escuridão
Como o fogo no breu, vela e cera
Nem no escuro se está perdido na imensidão

Disse-me ele: sábias palavras, viajante
Pois, onipresente sou por toda banda
Não obstante, desconheço o ébrio amante
Que inexiste em oceanos, onde a majestade clama
Mas dou-lhe o maior dos segredos: o meu universo é restrito
Possessões mais importantes existem em algum lugar
Onde reina a filha do sol, a flor do infinito
Num imenso ninho de amor, que se estende pelo chão do mar...

Página inversa, mundo inóspito

Vejo o meu mundo, o de cabeça pra baixo
É ao mesmo tempo bonito e dolorido
Tem rosto de mulher e voz de menina
Seu choro é infantil e tem um ingrediente desconhecido

Parece uma terra distante
Que o colonizador deixou por último
Onde fazer sua morada
E plantar as sementes que guardou por muitos dias

Tantos anos, e o mundo inverso também evolui
Com os seus habitantes, os meros desconhecidos
Súditos de meus sentimentos,
São eles parte do meu mundo de cá

Pelo telescópio eu sei o que se passa
Na sua vida rotineira, flores no quintal
Sombras circundam os meus olhos
É o eclipse! De repente...

Chove, chove forte todos os dias
Meu mundo, o de cabeça pra baixo
Sofreu um vendaval que arrastou as casas
Ah, essa natureza delicada do meu mundo!

Talvez o meu brilho de sol
E o meu sorriso puro fechem as fendas na terra
No rosto de mulher que se padece
Com a brisa, agora, se acalmam as águas... é o meu soprar...

quarta-feira, março 15, 2006

Entre paragens...

Eu não fui cavar no tempo o brilho esquecido
Cortejar flores que se embrunham ao luar
Não despejei meus olhar convicto
Em paisagem pobre de semear

Foi pelo eterno, em nome do impalpável
Que toquei o peito com suas feridas
Em nome do ardor inconsolável
Para reavivar o perecido em outras vidas

Não me ocultei, não me revelei
Mostrei meu amor como identidade
Se falhei quando sorri, nada reverenciei
Mas chorei por nada ao dizer a verdade

Só não me orgulho de ter deixado
Para o início da vigília o vôo profundo
Tapei buracos no vento desbotado
Não era o tempo do etéreo em meu mundo

Sonhei com os olhos cerrados,
Raciocinei com os olhos pro alto,
Fitando o incerto com sorrisos acabrunhados
Volvendo ao início, refazendo-me num salto

Tantas paragens receberam minha paz
Quando sustentei angústia, sem deixar fugir
Esperança no murmúrio que deixei escapar
Soube, então, como se aprende a não mentir

E agora, que nem o derradeiro momento se cogita
Permeio o pensamento de seara, a serenar
Querendo amar pelo eterno, em nome do que se precipita
Podendo dizer acabou o medo, é tempo de remediar...

Águas plácidas

Uma chuva fina de milagres
Acontece no pátio, você pensa
Se cai do alto, se vem de baixo
Se molha, limpando o passado

O vento suspirou, foi um aviso
Você viu as últimas estrelas se despedirem
Nem sempre as nuvens predizem tempestade
Conforme a hora, chove na cidade
Chove em algum lugar, chove em você

Seus olhos secos
Imóveis e distraídos,
Ao invés de evocarem lágrimas
Atraem nuvens, mudam o céu
As cores e odores do mundo

Quando chorava, um pesado lago se formava
Quando me olhava, um pesado fardo me calava
Quando se humilhava, um triste saldo se vencia
Quando me vencia, um ciclo vasto se revertia

E um rio estreito de pranto
Cortava os meus pés imundos
Suas águas se recolhiam na noite
E de manhã recomeçava o rito

Trovejou uma única vez
Bem longe, só restou o barulho
Serena-se o teto, passou o céu turvo
As estrelas são, agora, as únicas verdades
Que os seus olhos iluminados irradiam...