segunda-feira, janeiro 30, 2006

Na janela o céu

Não vou falar de sentimentos
À janela aberta, para o vento
Colecionar amores, sabores
Não vou esfriar os calores
Nem mudar num estalar o tempo
Enunciar contentamento
Esclarecer-me do que há
Ou do que vem atrás
Perder a hora e reclamar
Que a peça já está para começar
Não vou esfriar as retinas
E só esquentá-las nas matinas
Vou à noite procurar o final
Da história banal
De um homem que é menino
E hoje acordou insistindo
Que ainda não nasceu, que ainda
A dor não é extinta
E as florestas ainda vazias
As casas de marias
Não recebem estrangeiros como ele
E não tecem vestidos para nele.
Nem vou imaginar tudo diferente
Só o silêncio é comovente
Mas no palco a atriz chora
A tristeza que não vai embora
É como um louco como eu
Cicatriz que não morreu
No peito esquerdo mudo
A bater como se bate um surdo
Mas não insta para falar de sentimentos
À janela aberta, para o vento
Que fechado estou na mente
E não há nada que eu invente
Nessas horas de penúria ingrata
Nesse sonho que em verso acaba...

sábado, janeiro 28, 2006

Miasmas

Por quê, miasmas?
Leveis minha cabeça se desejas
Já não a tenho.

Resta uma alma
À espera de outra.
Ouço um tango francês
Não choro porque feliz
Ela não disse estar
Que está ocultamente em suas pistas

Miasmas, deixeis o corpo
Ela precisa de mim.
Sou seu mar aberto, sua jangada
Mas meu corpo disfarça

Não sou nem esse moribundo feliz
Do cartaz na cidade mazelenta
Ou as estrelas frias no verão do mundo
Gelo da alma, primavera fica pro futuro

Miasmas, conseguistes tudo
Deixastes um lembrete de despedida
Dizendo, levo a cabeça e o corpo
E tua alma volto pra buscar mais tarde

Ingratidão tamanha,
Falseares a certidão da tristeza
Levastes o sopro, a pousada manhã,
O choro fino e me permitires o desespero

Infeliz, mil vezes
Miasmas, que me levastes tudo
E ainda cobiçais minha alma
Ganhastes um mundo de desconfianças
Mas não roubastes nem um pouco de minhas esperanças...

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O leve

Deslizo,
Desfaço em mil partículas de leveza
O mundo parece um passado
Telefonemas já não me chamam
Olhar partido, beijo de cinema
Histórias e dilações ferrenhas
Ficam na saída.

Estou vendo o que meus olhos não podem enxergar
Não me deixem recados,
De repente não existo mais
Mas depois eu volto
A juntar partículas e ouvir sirenes
Na mesa de jantar a escrever poemas
Com tanto sono...

Agora tento esquecer
Que penso em você mais que um segundo para querer
Despedaçar tudo e juntar o quê
Uma esperança e um beijo
Ainda não dado, eu vou viver
Por isso e em tudo
Levo o leve como nada...

terça-feira, janeiro 24, 2006

Mapa do nada

Meu coração não diz nada.
Simplesmente é dono de seu silêncio.
Tantos vêm perguntar, dizem olá
Mas no fundo querem cavar
A surpresa é que nada encontram
O meu tesouro não está lá

Um dia conheceram ou saberão
Da dor que vive à superfície
Como um campo de petróleo
Basta furar que jorrarão
Manchando suas vestes de um negro sujo.
Há pessoas que vêem valor nisso.

Exploram a natureza frágil
Capitalistas do inútil, eu não entendo
O que eles não entendem
Do que não estão vendo
Se não é legível ou tátil
O que não pulsa nas artérias nervosas

Não me refiro a sangue seco
A letra morta ou sentimento frio.
O que de fato não pulsa
É o que faz pulsar
E o que não corre no sangue
É o que o faz coagular

Mas meu coração não diz nada
É um túmulo, porque cerradas nele estão
As palavras que só duas almas podem interpretar
Que mistério há nisso,
Duvida vertiginosa ou assombro infinito?
Simplesmente, a vocês, não há nada a declarar...

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Não podemos cantar

Diga,
Que a vida começa agora.
Mas, por favor, não use da palavra
Não escreva num papel, num folhetim
Nem todos sabem,
Nem todos vão saber

Diga,
Que o sonho termina agora.
Escolha a melhor forma
Acorde primeiro,
Depois venha me acordar,
Para então a gente começar

A se calar,
E não dizer que sonha
Que vive,
Que ama, ou desamou por muito tempo
Dizendo palavras no papel, no folhetim
Com lápis e batom

Agora esqueça
Que lhe pedi um dia se calar
Quando não era hora
Se até agora sonhávamos
Tantos pesadelos imperfeitos
Idéias de outrora, outra vida

Quem dera-nos
Cantar ao invés de calar
Chorar ao invés de desalmar o pranto
Nesse manto salubre, onde só nos resta o silêncio...
E se não podemos cantar, contente-se,
Pois não iremos sequer falar...

Das coisas que sei

Eu não me orgulho de ser
Nem sou o orgulho que fui
Apenas sei,
Que o que serei no futuro
Tem tudo para muito me orgulhar
Nem assim me preocupo
Não quero me preocupar

Se o mundo já me deu um lugar
Uma casa, um recanto, um olhar
Uma flor, um horizonte, onde descansar
Não tenho do que reclamar.
Só não faço das minhas queixas tempo comum
Pros meus planos desabar
E frustrações exaltar

Eu não me orgulho de pensar
De uma forma vulgar ao pensamento do mundo
Tomo conta do meu tempo
E aproveito este momento para demonstrar
Que não sondo o trono onde pretendem me colocar
Apenas sei de mim mesmo
Que o resto... fica a desejar...

Não chores, menino

Não é bom que fiques sozinho
Nobre infante,
Tu que se deserdaste do direito de não ter
Agora sabe,
Olha o tempo passar como uma nuvem no céu.
É triste não ter a mesma raiva de antes.

Tu já conheceste a ingrata dor
Reconheceste no peito essa alcunha
Alguém que lhe feria ao sorrir
Ao mesmo tempo que sorria enquanto feria
Estranha dor,
Agora tudo ficou embalado, virou passado

Tu que preferes acreditar no que não vê
Agora não acreditas no que vê
És incerto, és confuso
Pois tua mãe dizia que pulavas o berço
E teu pai contava que pulavas a cerca
Sem motivo qualquer

Só não me chores, por favor
És pequeno demais para isso
Se ao menos tivesses completado a idade de morrer
Faria sentido, chorar de saudade, de amor
O que sentes é uma doce recompensa
Para os que odeiam odiar...
Sorrires, então, que tua dor é boa de doer...

sábado, janeiro 21, 2006

Esperante

Prostrado aos pés do mundo
Desconfiando do tempo e do tudo
Eu sou mais um arregalo pro norte
À espreita, desejando ter sorte

Como o vento, que sopra em liberdade,
Eu sou um pensamento alforriado
Sem medo do medo gigante.
Eu esqueço e sigo avante

Olhando o ar, devagar,
Começar a pestanejar.
É só a chuva, que vem castigar
Os momentos que passo no mar

E tudo o que não vejo imagino
Que verei quando o vento, já vindo,
Entregar sua letra morta
Que assina a liberdade inócua

Vivo cantante, feliz e esperante
As horas não filosofam o instante
Esperanço chegar quem ainda não vejo
A chuva de agora é só o começo...

Minha vida sem arte

Parar a sinfonia
E gritar um nome infame,
Dizer que amo alguém
Sem que realmente ame

É mais do que um crime
É abandonar-te

Pintar na tela crispadas cores
Pálidas e envelhecidas,
Perder meus olhos
Em uma beleza qualquer, sem vida

É mais do que insensibilizar-me
Com o que na natureza é merecida,
Adorar ilusões inertes
De uma frágil paixão desinibida

É mais do que uma ofensa
É maltratar-te

Depredar monumentos
Nas vias públicas do entojo cidadão,
Silenciar a voz do mundo
Ecoante em todo o tempo e condição

É mais do que dispersar a voz de um deus
É calar-te...