sábado, agosto 27, 2005

O real que é imaginário


Desta vez, o mundo caiu sobre nós
E tudo que gostaria de sentir
Ficou no plano da expectativa pulsante
Desta vez, nem mesmo a saudade explica direito
Que doloroso é não ter você comigo
... Foi a vontade que virou criança
Agora brinca do jogo do real
Será lembrança ou projeção?
Você que esteve aqui ou você está aqui?
Eu que enlouqueci, ou o tempo é louco?
Desta vez, não vamos achar pesada
A realidade imaginária que criamos
Se todo ensaio é também um pouco do momento esperado
Se toda luz será imagem na retina
Só precisamos aceitar que não vamos acordar
Pensando que ontem foi outro dia
Pois, na verdade, o nosso dia será nem um segundo
Desta vez, eu vou chama-la pelo nome
E se seus olhos são realmente castanhos, até vou saber
E se o seu sorriso é amarelo ou branco e seu cabelo ultrapassa o ombro
Eu vou saber
Para desenhar você no fundo branco do meu desejo
Escolhendo as cores certas, os contornos exatos
Que, para quando estiver diante da fonte
Desmanchar tudo outra vez, eu espero
Desta vez, a saudade explica de um jeito
A ilusão é a realidade que ficou de fora
Do plano das coisas que acontecem
Mas não é dentro de mim que ela acontece?
Então... deixa fluir...

sexta-feira, agosto 19, 2005

Tempo pra dizer...


É preciso não ver
A cidade é um vácuo
Ainda é tempo de dizer
O tempo voltou, não volta?

Alguém que chegou
Pelas ruas escuras, desertas ruas
Entre os prédios e acasos
Esparsos dizeres nos muros

Desenha o meu nome
Apaga, apaga a chuva
Não move as pedras
Não é leito de rio

O que entra pela porta
Não fecha o portal, que no mural
Ainda ligados pela cola
Cartazes anunciam a boa-nova

Na cidade dos homens
Procurei achar um lugar para sofrer
Onde o sol banha o mar de dourado
E fiquei contemplando o espetáculo da minha dor

Da sacada, sem luz acesa
Um anjo olhando as estrelas
As ruas que se enraízam dessa imagem
Fazem-me crer que o tempo é invertido pra quem ama

E o silêncio, assobio do vento
Na cidade de peneiras humanas
Fez colher o espectro ambulante
Das idéias vazias, no íntimo das palavras

Tudo tão longe, casas, muros
Fachadas, corredores...
Onde me perco me encontro
Citado em um livro de recados

O anjo voou pela cidade
E o milagre que fez, que faz
Toda vez que abre suas asas
Não foi pra mim, mas eu senti

Como se as estradas estivessem fechadas
Só para mim, mas todos aqueles
Não soubessem que longe dali
Há um lugar que é só meu

O céu tingiu-se de vermelho
O vazio da cidade agora fica dentro de mim
Mas ainda é tempo pra dizer
É preciso não ver

quarta-feira, agosto 17, 2005

Simples hora


Os pedaços que perdi, não vi
Os momentos que vivi, você não estava aqui
Nas horas morridas de inveja, deixa ir
Um pouco de tudo em mim, você diz

Antes que comecemos, vamos terminar
Se quer ficar por hoje, não vá
Mas se o dia começar mais cedo, virá
Logo o momento de ir, para lá

Chegue mais perto para ver
A linha do horizonte, no final, se perder
O momento último é para viver
Mas na simples hora, esquecer

Diga adeus, mesmo sem voz
Ainda na garganta, sentir um nó
No amanhã, não sei, já estará só
E tudo de repente será dor, para nós

Os pedaços que encontrar, não deixo
O vento levar daqui, nem tudo, não esqueço
O que nos juntou foi o tempo, mas só vejo
O tempo que espero a sua volta, sem medo...