terça-feira, fevereiro 28, 2006

Cores

As cores mudam
E a alva cor que lhe inspira amores
Enrubesce a face, mas uma hora some
Inexpressivo olhar fitará o além

Alguma coisa passou
Sem que seus olhos pudessem ver
E agora, com a tempestade, o que a vê
Parece ser o olho do furacão

Logo passa, como tudo, como as cores
E a alegria volta por algum motivo outro
Como o de antes
Já perecido ao tempo

É preciso temperar dilemas,
Envolver momentos,
Manejar amores,
Pois tudo passa

Hoje sabe,
Alguma força arrasta a multidão
Mas basta um sorriso sincero
Para penetrar um coração

Adeus felicidade
Entre as pazes vem a guerra
Entre amores, dessabores
E como as cores, tudo muda e se enterra...

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Longe, ausente, distante

Longe, ausente, distante
No casebre do tempo
Com os olhos vendados
Sem pensamento, soltando bolhas pelo ar

Na esquina um pedinte
Na janela do vizinho a luz
Do outro lado o vento
Contornando a irregularidade do ar

Nas escadas o silêncio
O portão não faz barulho
Tão logo terá fugido
Para não mais voltar


Longe, ausente, distante
Conhecendo o diferente
Começando do passado
Que julgava ser parente

E, de repente, ressonam as sirenes
Fugitivo do medo acaba de escapar
Fechem as alfândegas
Soltem os cães de vigilância

Sentinelas de prontidão
Centro de informações ativado
Iniciem a busca
Investiguem as nuanças


Longe, ausente, distante
O mundo a procurar
Na noite se camufla
Mas não demora o amanhecer

Entrou na barca do esquecimento
E foi velejar no sonho
Escondido em todo canto
Que se pode conhecer

A inerte estátua
Que todos achavam perceber
Piscou num átimo
Foi fácil de saber


Longe, ausente, distante
Pêgo de surpresa
Por câmeras de tevê
Fuzilado pelo olhar

Foi-se com a dor
Acabou no pranto
Morreu o espírito aventureiro
Antes do dia começar

Bom viver alguns instantes
Livre de vocês
Mas com o estranho parente
Um dia vai acabar...

Orquestra Universal

Em concerto, as estrelas sinfoniam uma ópera qualquer
Os meus olhos não vêm, tão perto as nuvens escondem
Dissipando os sons dos sóis das distantes galáxias

Deus, o maestro do Universo, prepara uma surpresa para o último ato
Eleva o tom, estouram tambores e o espaço está em festa
Donde estou, apenas brilham as estrelas, pontos no escuro

Mas, pudéssemos nos elevar ao centro acústico do Universo
E ouviríamos a divina canção da Perfeição
Estrondeante sonoridade das falanges celestiais

Aqui, as nuvens cobrem o céu e o vento frio faz do calmo silêncio
Uma pesada nota de angústia, que no meu peito
Oprime-se em dor infinita como a Orquestra dos Céus

O dia amanhece e o público ainda aplaude
Reverências e gratificações ecoam-se aos céus de todos os cantos
Mas a sinfonia de Deus não pára um segundo, pois em algum canto do mundo já é noite...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Com ou sem ciência

De tanto construir sistemas
E raciocinar os sentimentos
Caí em um dilema, que eu mesmo criei
Mas que não havia solução

Qual o tamanho do amor,
Como medí-lo,
De onde surge,
Com qual finalidade?

Criei hipóteses e levantei uma tese
Segunda a qual o amor se expande
E, logo, é limitado
Com isso, tive medo de meus limites

Tal idéia oprimia meu peito,
Diante da dor, quis entendê-la
Saber a sua origem
Fundarmentar sua razão

Mas, perplexo,
Observei ser ela ainda mais complexa
Ao ponto de confundir os meus métodos
E desfacelar a minha ciência

Sem referências,
Quis afastar-me da minha mente instigante
Pois já me cansava de ela tanto elaborar
O que, a princípio, não tinha forma

Distante da mente, aproximei-me do coração
Que, com poucas palavras,
Falou-me do amor
E justificou minha dor

Assim, os meus pensamentos, antes tão confusos
Harmonizaram-se com a tese de que
Com amor se pode entender todas as coisas do Universo
Que não sejam, por enquanto, o próprio amor...

Quando temos fé
Aqueles que julgam impossível
Perdem a voz
E, com o tempo, se calam

Quando temos fé, a verdadeira,
Tudo vai contra
Tudo duvida
Menos a fé

Esta se sustenta sozinha
Não precisa de alguém
De apoio ou amparo
Só precisa da própria fé

Pois sem fé os sonhos caem
Verdades se abalam
Esperanças se diluem
Amores se perdem

Mas, com ela
Cada coisa é possível, dentro do impossível
Cada sonho é real, dentro do irreal
Todo amor é verdadeiro, dentro da descrença...

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Tarde Bela

Tudo está tão calmo agora
Olha o céu divino, olha
Sente o pranto nas paredes
É o sol que vai embora
É a esperança que renova
Nosso sonho de agora
E o seu beijo que não sai
Da minha mente nunca mais

Ah, se os seus olhos conhecessem
Os pomares de prazeres
Que surgem com o luar
O nosso amor seria chama
A lumiar a noite estranha
Dos boêmios a chorar
Os amores de criança
As vontades de amar

O nosso amor de dessabores
Sabe o preço de amores
De amores sem o amar
Pois só com ele a alma dança
E esquece toda a trama
De quem vive a lutar
Contra o peito sem descanso
Nunca sabe o que é amar

Mas, olha o céu divino, olha
Veja o brilho de outrora
Quando a gente se amou
Em tardes belas como esta
Sob a natureza bela
Paraíso que ficou
Nas lembranças de um passado
Que nunca que passou...

Você voltar

Você foi andar no mundo, cantarolar,
Olhar a flor, enamorar
O vento frio da noite, então

Aqui ficou guardado o seu perfume
Passou a brisa e o tufão
Só não levou meu coração

Ah, meu pensamento não se cansou
De se lembrar do dia anterior
Quando sorrindo, você me olhou

E disse, pra que tristeza, ó meu amor
Que o tempo passa, leva pra lá
Essa sua dor

Foi, foi passear no bosque afora
Chamar o vento, amores cantar
De trova humilde a quem lhe ama

Foi, mas me deixou o seu perfume
Essência viva de quem ama
E à noite espera você voltar

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

O que não se sabe bem o que é

De repente vem
Vem de repente, chega sem avisar
Não dá tempo de pensar
Logo invade tudo
Do pensamento ao coração
Da lembrança à esperança
Da vontade à saudade

Não dá chance para ser razoável
Juntar as peças e excluir tal idéia
É tão irrisório como o fósforo
Que incendeia toda a floresta
Por horas, senão dias

É finito quanto uma bactéria
Mas se reproduz com a mesma vertiginosa velocidade
Arrasta blocos e fere anticorpos
Abre um espaço no peito
Onde penetra o vazio

Surge do acaso, chama de uma palavra
Ou de uma inconsciência qualquer
Começa do estopim e explode por horas

De repente vem
Vem de repente
Por um segundo, não importa se mais ou menos
Ela pensou em outro alguém...