sexta-feira, dezembro 01, 2006

Ciclo do amor

A face da dor sublimou
E as mágoas passaram como água
Falanges de sonhos verteram os efeitos dilacerantes
Em bálsamos calmantes nas almas machucadas

Amor reparou as falhas,
E as chagas fecharam-se com o tempo
A torrente de emoções precipitou-se
E a terra úmida fez nascer uma flor

A semente demorou-se no chão infértil,
Quente e seco, abandonada ao desalento.
Mas, do estuário da dor, escorreu uma única lágrima
Que caiu como um cristal na semente agonizante.

Amor nasceu, no campo morto do egoísmo
Esperança brotou, sonho cresceu
Vontade ganhou o ar e feneceu
A folha seca da lembrança amarga

Banhada de luz, brotou a flor
Girassol alegre que acompanha o sol.
Amor venceu o ciclo da dor, e a natureza inerte
De um coração de pedra, fecundou imorredoura alegria no tempo...

sábado, julho 08, 2006

O ser que eu não sou

Desconfio que muito tempo passou
Passaram os ventos, os versos...
E eu, fiquei esperando o mundo.
Cansei.

Também mudei.
E hoje quase não localizo
O ser que fui, hoje não sei quem sou:
Portanto, sem presente e sem passado.

Olhando as fotos
Eu pareço algo que não fui
Alguém que me recordo, talvez um amigo
Do ensino médio, que mudou de cidade.

Também mudaram as cores do papel
Estão amarelando cada vez mais
Um dia, não vai dar mais para ler
Mas fica sempre um pedaço jogado em algum lugar...

Só não mudou o olhar.
A mesma tristeza de não sei o quê
O mesmo sorriso cismado.
Um olhar e um sorriso: este sou eu...

Quem sabe o teu olhar...

Quem sabe o nada anda perquirindo os teus olhares?
Fitas o vazio, quando eu sinto
Alguma coisa preencher tua alma

Sugaste o mundo ao redor
A luz do sol perdeu o brilho
A água já não vaporiza
E o teu olhar, translúcido como nunca,
Ainda fita o vazio

Eu queria olhar um ponto escuro e ver tudo
Eu queria ser como és
Eu queria florir assim os meus desertos
Tudo isso sem nada ver

Mas, quando fecho os olhos
Eu posso ver tudo, sem registrar nada
Todas as minhas dores são imagens
Tão grandes, tão difíceis...

Quem sabe o silêncio investiga os meus olhares?
E eu fujo dele nas letras de uma poesia?
Quem sabe o teu olhar...

sábado, junho 24, 2006

Sem efeito

Sem efeito o que fiz
Ficou no vazio
Vazio se multiplicou
Com efeito, o sem efeito gerou isso

Um gesto com toda a energia
Totalmente sem efeito
Mata sempre uma esperança

E uma esperança morta
Deixa alguém vazio por dentro

E foi assim que...
Sem efeito gerou vazio...
Gerou efeito....

O que ninguém cala nem ouve

Com palavras,
Além das que não consigo,
Não posso dizer o que sinto.
Não me importo se o que vivo
Chega a ser intraduzível
Mas, próximo do indizível
Meu sentimento é indiminuível.

Perdi a liberdade de dizer
Quando sacrifiquei o que não podia escolher
Nessa estrada das palavras
Não toleram falas erradas
Ficou por falar
Aquela última frase, a desejar

Então, sem medo de pensar
Tenho este silêncio para consolar
Em mim digo de passagem
O que é intolerável aos que não sabem

terça-feira, março 21, 2006

Último reino

Aos navegantes de primeira viagem
Ensina o mar
Em suas primeiras ondas à margem
Como se equilibrar no ar...
Girou o primeiro errante
Afogou-se logo na profundidade
De um céu escuro e berrante
Cego pela claridade

Pois, acredite, nem todos nasceram para sonhar
Eu conheci uma rainha,
Filha de Poseidón, filha do mar
Reclamando que o amor nunca vinha
Enclausurada em lembranças
Em seu castelo de areia solitário
Mandou o vento sondar as estâncias
Em busca do sentimento lendário

Falou-me o preposto sobre tais anseios
Então lhe pedi: amigo, vá ventar
A mais bela das mulheres quer esteio
Esperando o que não quer começar
A noite cala as ondas e faz chover estrelas
E a lua derrama sua luz sobre a escuridão
Como o fogo no breu, vela e cera
Nem no escuro se está perdido na imensidão

Disse-me ele: sábias palavras, viajante
Pois, onipresente sou por toda banda
Não obstante, desconheço o ébrio amante
Que inexiste em oceanos, onde a majestade clama
Mas dou-lhe o maior dos segredos: o meu universo é restrito
Possessões mais importantes existem em algum lugar
Onde reina a filha do sol, a flor do infinito
Num imenso ninho de amor, que se estende pelo chão do mar...

Página inversa, mundo inóspito

Vejo o meu mundo, o de cabeça pra baixo
É ao mesmo tempo bonito e dolorido
Tem rosto de mulher e voz de menina
Seu choro é infantil e tem um ingrediente desconhecido

Parece uma terra distante
Que o colonizador deixou por último
Onde fazer sua morada
E plantar as sementes que guardou por muitos dias

Tantos anos, e o mundo inverso também evolui
Com os seus habitantes, os meros desconhecidos
Súditos de meus sentimentos,
São eles parte do meu mundo de cá

Pelo telescópio eu sei o que se passa
Na sua vida rotineira, flores no quintal
Sombras circundam os meus olhos
É o eclipse! De repente...

Chove, chove forte todos os dias
Meu mundo, o de cabeça pra baixo
Sofreu um vendaval que arrastou as casas
Ah, essa natureza delicada do meu mundo!

Talvez o meu brilho de sol
E o meu sorriso puro fechem as fendas na terra
No rosto de mulher que se padece
Com a brisa, agora, se acalmam as águas... é o meu soprar...

quarta-feira, março 15, 2006

Entre paragens...

Eu não fui cavar no tempo o brilho esquecido
Cortejar flores que se embrunham ao luar
Não despejei meus olhar convicto
Em paisagem pobre de semear

Foi pelo eterno, em nome do impalpável
Que toquei o peito com suas feridas
Em nome do ardor inconsolável
Para reavivar o perecido em outras vidas

Não me ocultei, não me revelei
Mostrei meu amor como identidade
Se falhei quando sorri, nada reverenciei
Mas chorei por nada ao dizer a verdade

Só não me orgulho de ter deixado
Para o início da vigília o vôo profundo
Tapei buracos no vento desbotado
Não era o tempo do etéreo em meu mundo

Sonhei com os olhos cerrados,
Raciocinei com os olhos pro alto,
Fitando o incerto com sorrisos acabrunhados
Volvendo ao início, refazendo-me num salto

Tantas paragens receberam minha paz
Quando sustentei angústia, sem deixar fugir
Esperança no murmúrio que deixei escapar
Soube, então, como se aprende a não mentir

E agora, que nem o derradeiro momento se cogita
Permeio o pensamento de seara, a serenar
Querendo amar pelo eterno, em nome do que se precipita
Podendo dizer acabou o medo, é tempo de remediar...

Águas plácidas

Uma chuva fina de milagres
Acontece no pátio, você pensa
Se cai do alto, se vem de baixo
Se molha, limpando o passado

O vento suspirou, foi um aviso
Você viu as últimas estrelas se despedirem
Nem sempre as nuvens predizem tempestade
Conforme a hora, chove na cidade
Chove em algum lugar, chove em você

Seus olhos secos
Imóveis e distraídos,
Ao invés de evocarem lágrimas
Atraem nuvens, mudam o céu
As cores e odores do mundo

Quando chorava, um pesado lago se formava
Quando me olhava, um pesado fardo me calava
Quando se humilhava, um triste saldo se vencia
Quando me vencia, um ciclo vasto se revertia

E um rio estreito de pranto
Cortava os meus pés imundos
Suas águas se recolhiam na noite
E de manhã recomeçava o rito

Trovejou uma única vez
Bem longe, só restou o barulho
Serena-se o teto, passou o céu turvo
As estrelas são, agora, as únicas verdades
Que os seus olhos iluminados irradiam...

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Cores

As cores mudam
E a alva cor que lhe inspira amores
Enrubesce a face, mas uma hora some
Inexpressivo olhar fitará o além

Alguma coisa passou
Sem que seus olhos pudessem ver
E agora, com a tempestade, o que a vê
Parece ser o olho do furacão

Logo passa, como tudo, como as cores
E a alegria volta por algum motivo outro
Como o de antes
Já perecido ao tempo

É preciso temperar dilemas,
Envolver momentos,
Manejar amores,
Pois tudo passa

Hoje sabe,
Alguma força arrasta a multidão
Mas basta um sorriso sincero
Para penetrar um coração

Adeus felicidade
Entre as pazes vem a guerra
Entre amores, dessabores
E como as cores, tudo muda e se enterra...

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Longe, ausente, distante

Longe, ausente, distante
No casebre do tempo
Com os olhos vendados
Sem pensamento, soltando bolhas pelo ar

Na esquina um pedinte
Na janela do vizinho a luz
Do outro lado o vento
Contornando a irregularidade do ar

Nas escadas o silêncio
O portão não faz barulho
Tão logo terá fugido
Para não mais voltar


Longe, ausente, distante
Conhecendo o diferente
Começando do passado
Que julgava ser parente

E, de repente, ressonam as sirenes
Fugitivo do medo acaba de escapar
Fechem as alfândegas
Soltem os cães de vigilância

Sentinelas de prontidão
Centro de informações ativado
Iniciem a busca
Investiguem as nuanças


Longe, ausente, distante
O mundo a procurar
Na noite se camufla
Mas não demora o amanhecer

Entrou na barca do esquecimento
E foi velejar no sonho
Escondido em todo canto
Que se pode conhecer

A inerte estátua
Que todos achavam perceber
Piscou num átimo
Foi fácil de saber


Longe, ausente, distante
Pêgo de surpresa
Por câmeras de tevê
Fuzilado pelo olhar

Foi-se com a dor
Acabou no pranto
Morreu o espírito aventureiro
Antes do dia começar

Bom viver alguns instantes
Livre de vocês
Mas com o estranho parente
Um dia vai acabar...

Orquestra Universal

Em concerto, as estrelas sinfoniam uma ópera qualquer
Os meus olhos não vêm, tão perto as nuvens escondem
Dissipando os sons dos sóis das distantes galáxias

Deus, o maestro do Universo, prepara uma surpresa para o último ato
Eleva o tom, estouram tambores e o espaço está em festa
Donde estou, apenas brilham as estrelas, pontos no escuro

Mas, pudéssemos nos elevar ao centro acústico do Universo
E ouviríamos a divina canção da Perfeição
Estrondeante sonoridade das falanges celestiais

Aqui, as nuvens cobrem o céu e o vento frio faz do calmo silêncio
Uma pesada nota de angústia, que no meu peito
Oprime-se em dor infinita como a Orquestra dos Céus

O dia amanhece e o público ainda aplaude
Reverências e gratificações ecoam-se aos céus de todos os cantos
Mas a sinfonia de Deus não pára um segundo, pois em algum canto do mundo já é noite...